PERSPECTIVAS NACIONAIS DO DESENVOLVIMENTO RURAL
in: Agricultura, Meio Ambiente e
Sustentabilidade do Cerrado Brasileiro, organizado por Shigeo Shiki,
José Graziano da Silva e Antonio Cesar Ortega, Uberlândia: UFU/CNPq/FAPEMIG,
1997, pp: 101-118
José Eli da
Veiga
USP/DEP.ECONOMIA & PROCAM
zeeli@usp.br
SEMINÁRIO
INTERNACIONAL “AGRICULTURA, MEIO AMBIENTE E SUSTENTABILIDADE DO CERRADO
BRASILEIRO”
Universidade Federal de Uberlândia
Curso de Mestrado em Desenvolvimento Econômico
Uberlândia, MG, 24-26 de Setembro de 1996
(Texto
revisto em fevereiro de 1997)
Perspectivas Nacionais do Desenvolvimento Rural
José Eli da
Veiga
USP/DEP.ECONOMIA & PROCAM
zeeli@usp.br
Ao usar a noção de
“desenvolvimento rural” estamos supondo que o desenvolvimento não somente é
desigual, mas que essa desigualdade, defasagem, ou descompasso, se manifesta na
oposicão espacial entre o urbano e o rural. Será que a experiência dos países
desenvolvidos confirmaria tal suposição? Mostraria que a discrepância entre as
realidades urbana e rural são mesmo tão significativas?
Parece que não. Pelo
menos, a comparação entre os perfis rurais dos dois primeiros colocados na
classificação pelo Índice de Desenvolvimento Humano[1]
indica o contrário (tabela 1). Considerando-se
os respectivos custos de vida, a defasagem nas rendas médias familiares
certamente seria menor. Também não se manifestam desvantagens significativas
nos indicadores de desemprego e de pobreza[2]. E, sozinha, a maior incidência urbana de
pessoas com alguma educação superior -principalmente nos EUA- não ilustra uma
séria desigualdade entre o desenvolvimento urbano e o rural. Ou seja, essa
comparação sugere que o desenvolvimento
rural é parte integrante de uma única dinâmica - sistêmica - de desenvolvimento.
Mas é preciso levar em
conta a distinção fundamental entre desenvolvimento enquanto processo e desenvolvimento enquanto objetivo de políticas públicas e
governamentais. Como tendência irreversível à mudança econômica, o
desenvolvimento tem sido um fenômeno inerente a toda a história das sociedades
humanas, sem que necessariamente fizesse parte de suas utopias. Até a IIa
Guerra Mundial, em vez de desenvolvimento, o grande anseio das nações era o
“progresso material” ou “progresso econômico.” Nos vinte anos seguintes,
desenvolvimento foi sinônimo de crescimento. E de meados da década de 1960 a
meados da década de 1980, vários objetivos sociais foram anexados ao
crescimento econômico nas definições de desenvolvimento: emprego, necessidades
básicas, redução da pobreza, redução das desigualdades, bem-estar,
modernização, justiça social, inclusão social, etc.[3]
Ao longo desses 40
anos também foram surgindo qualificações - como desenvolvimento social ou desenvolvimento humano - e alguns cortes setoriais e
espaciais, como agrícola, industrial,
florestal, pesqueiro, turístico ou rural, urbano, costeiro, etc. Mais
recentemente, com o avanço das preocupações ambientais emergiu, em meados dos
anos 1980, uma visão mais totalizante, de desenvolvimento
sustentável, articulada pelo tripé
econômico/social/ambiental. Essa noção foi primeiro popularizada pelo
Relatório Bruntland[4] e
definitivamente consagrada pela Agenda 21 lançada pela RIO-92.
Já era difícil no
passado discutir isoladamente o desenvolvimento rural. O balanço de trinta anos
de esforços desenvolvimentistas no “terceiro mundo,” feito por Lipton(1976),
mostrou que os pobres continuavam pobres por causa do “viés urbano” da alocação de recursos. Isso já mostrava a
precariedade das propostas de desenvolvimento rural que se apoiavam nos “três
dentes do forcado”: modernização agrícola, serviços sociais (educação, saúde,
nutrição e planejamento familiar) e programas organizacionais para melhorar as
habilidades gerenciais e a infraestrutura institucional.[5]
Nada surtia efeito porque o meio rural era desprezado nas grandes decisões
públicas e privadas de investimento. Não fazia sentido pensar o desenvolvimento
rural como algo separado, ou autônomo. E agora, com a abordagem mais global do
desenvolvimento sustentável, essa separação entre
rural e urbano ficou ainda mais temerária.
Para discutir os rumos
possíveis do desenvolvimento rural é necessário, portanto, inseri-los nas
perspectivas do desenvolvimento do país. Quais são estas perspectivas?
Até bem pouco tempo,
este país esteve tão atarantado com o caos inflacionário que só podia haver
descrença sobre perspectivas de desenvolvimento. Após dois anos de
estabilização, começaram a surgir pelo menos alguns sinais sobre as visões que
coexistem no interior da atual coalizão governamental. Mas as diversas frações regionais e de classe que respaldam esse
governo parecem estar muito longe de um novo pacto desenvolvimentista.
O documento do diretor
do BC, Gustavo Franco, intitulado “A inserção
externa e o desenvolvimento,” não combina em nada com as pretensões do
Ministro do Planejamento, Antonio Kandir, em direcionar o desenvolvimento por
meio de um novo “Plano de Metas.” Para Franco, “o investimento ocorre porque o
setor privado confia na sustentabilidade de um quadro macroeconômico básico.
Não é mais consequência de um ‘projeto nacional’, composto de
megainvestimentos, urdido em gabinetes.(...) Hoje, o ‘plano de metas’
governamentais não é mais tão importante...” Para Kandir, a seleção de 42
projetos prioritários serve para sinalizar a investidores nacionais e
estrangeiros e orientar o próprio
orçamento federal.[6]
Contrariamente a Franco, ele parece dar importância à política industrial, ao
crédito direcionado e favorecido a determinadas linhas de investimento, a
políticas de estímulo às exportações e controle das importações, e a mecanismos
de decisão por “concertação,” envolvendo a burocracia estatal, a iniciativa
privada e os trabalhadores.
Esse “confronto” entre
as duas visões assumidas por Kandir e Franco provavelmente terminará em “muro”.
A resultante talvez seja a posição intermediária, mais adequada ao gosto
tucano, assumida, por exemplo, pelo Secretário de Política Econômica, José
Roberto Mendonça de Barros. Em artigo recente ele se situou “entre os
defensores da velha política industrial iniciada nos anos 50 e cujo ápice foi o
II PND nos anos 70, quando se achava que internalizaríamos e controlaríamos
toda a matriz industrial, e os defensores do laissez faire total, que não acreditam que exista algum espaço de
atuação governamental em qualquer setor da economia.”[7]
Sejam quais forem os
desdobramentos dessa contradições entre visões tão diferentes sobre o
desenvolvimento, eles certamente serão balizados por fatores mais profundos,
que limitam as margens de manobra de planos de metas, políticas setoriais,
incentivos fiscais, etc. E esses fatores condicionantes também reduzem o leque
de opções sobre os rumos do desenvolvimento rural. Se tais condicionantes não estiverem presentes desde o início,
qualquer exercício prospectivo embutirá um alto risco de ser irrealista e
mistificador. Pelo menos três desses condicionantes já parecem bem claros.
a) A abertura
comercial, que precedeu e sustenta a estabilização, acabou com os instrumentos
de política governamental que caracterizaram a industrialização substitutiva de
importações: restrições quantitativas por meio de cotas, licenças de
importação, emprego generalizado de subsídios específicos para setores, com
destaque para os destinados a estimular as exportações, índice de
nacionalização, etc. Tais instrumentos, que foram decisivos para o surgimento
de uma economia industrial no Brasil, tornaram-se um entrave à sua inserção no
intenso crescimento dos fluxos de comércio de bens e serviços e de investimento
internacional, processo que vem sendo chamado de “globalização”(mais correto é
dizer que se trata da atual fase de um longo e oscilante processo de
globalização). A partir dos anos 80, a empresas mais dinâmicas - na maioria
estrangeiras - passaram a revelar uma forte propensão a exportar, que entrou em
choque com os citados instrumentos que restringiam o comércio exterior. A
supressão desses instrumentos passou a condicionar, tanto quanto a própria
estabilização, a volta de investimentos diretos estrangeiros.
b) O
barateamento de bens de consumo de massa (decorrente da estabilização apoiada
na abertura) começou a mostrar o caminho da distribuição de renda, mas foi
contrabalançado pelo aumento do desemprego causado pela reestruturação industrial,
pelos “ajustes” no sistema financeiro e no setor público e pela difícil
adaptação da agricultura. Na indústria, houve um nítido salto da produtividade
do trabalho. Segundo a FIESP, a taxa de crescimento da produção por horas
trabalhadas, que era de 1,4% anuais no período 1986/90, passou para 7,6% anuais
no período 1990/95. Trata-de de um aumento brutal, mesmo que tenha que ser
corrigido para incorporar a terceirização e a maior informalidade do mercado de
trabalho.
Os ensaios sobre o
desenvolvimento que procuram integrar uma grande lista de variáveis,
tendências, problemas, ou macrovetores, podem até resultar em interessantes
panoramas descritivos, com úteis subsídios para a elaboração de planos ou
intervenções. Mas não fornecem qualquer tipo de análise prospectiva se não
forem articulados por um critério central. Não se trata de abdicar do anseio
por uma síntese holística. Trata-se sim de perceber que ela exige aproximações
sucessivas, construídas sobre esforços analíticos que são necessariamente
aprofundamentos reducionistas. A aversão ao reducionismo é irmã gêmea da
superficialidade das generalizações.
A heterogeneidade das
dinâmicas de crescimento econômico, distribuição de renda e preservação
ambiental tornam inócuas as tentativas de generalização. Mesmo a abordagem por
grandes regiões, ou por grandes ecossistemas, contém sérias limitações.[8]
Ou seja, um bom diagnóstico do
desenvolvimento rural exige a multiplicação de abordagens mesorregionais, como,
por exemplo, o estudo feito pela EPAGRI sobre o Oeste Catarinense.[9]
Inúmeros parâmetros
econômicos, sociais e ambientais precisam ser integrados para pensar o
desenvolvimento como objetivo de políticas públicas e governamentais. Mas, para alavancar um esforço analítico é
preciso escolher os que parecem essenciais. No momento histórico em que se encontra a sociedade brasileira, esse
parâmetro tem que ser a ocupação econômica, isto é, o conjunto das
oportunidades de geração de renda, muitas vezes entendidas apenas como
“emprego”. Hoje, no Brasil, qualquer esforço sério de desenvolvimento rural
passa pela maximização dos postos de trabalho. É isso que pode garantir a
redução da pobreza e a segurança alimentar, dois excelentes indicadores do
desenvolvimento. Só que o aumento da ocupação não pode desrespeitar os limites
naturais, nem impedir elevação da produtividade do trabalho. Esse é o grande nó
do desenvolvimento e, portanto, o problema central de qualquer discussão sobre
os rumos do desenvolvimento rural brasileiro.
Para enfrentar o
dilema ocupação/produtividade, a experiência internacional aponta para cinco
requisitos básicos:[10]
mudança da distribuição de ativos; reestruturação produtiva setorial; redução
da vulnerabilidade do mercado de trabalho; apoio ao consumo social e
organização dos excluídos. A mudança da distribuição de ativos refere-se tanto
à terra e capital físico (reformas agrárias), quanto ao capital humano
(educação, formação profissional, acesso à ciência e tecnologia).
A reestruturação
produtiva setorial refere-se à promoção da produção e do trabalho informal,
artesanal e agrícola, assim como aos esquemas de frentes de trabalho em obras
públicas. A redução da vulnerabilidade do mercado de trabalho refere-se tanto à
regulamentação mais comum (salário mínimo, direitos trabalhistas), quanto ao
combate às discriminações a gênero, identidade ética, idade, situação familiar,
etc. O apoio ao consumo social refere-se não somente às ações assistenciais
voltadas para as necessidades básicas do mais pobres (alimento, abrigo, saúde,
etc.), mas, sobretudo, aos sistemas de seguridade e assistência social. A
organização dos excluídos refere-se a todas as iniciativas que favoreçam sua
participação na criação, controle e direcionamento das políticas públicas
desenvolvimentistas.
O atendimento desses
cinco requisitos exige, evidentemente, um consenso
social voltado para a redução da pobreza, no qual se destacam três
condições básicas: i) recuperação da demanda, ii) redefinição dos papéis dos
principais agentes (mercado, estado e sociedade civil); iii) políticas macroeconômicas com
incentivos setoriais à absorção de trabalho.
Ao mesmo tempo, é
preciso ter presente que diretrizes para uma política de desenvolvimento rural
sustentável só poderão resultar de aproximações sucessivas dos principais
determinantes socioeconômicos e ambientais daquilo que o sistema de
planejamento vem chamando de “eixos de desenvolvimento”. Por isso, uma
referência complementar é a aproximação inicial sobre o conjunto do território
nacional divulgada no documento “Os
Ecossistemas Brasileiros e os Principais Macrovetores de Desenvolvimento”
(PNMA,1995). Novas pesquisas poderão contribuir para um aprofundamento
regionalizado desse esforço analítico desde que incorporem algumas mudanças de
cunho metodológico.
Conforme dados
divulgados recentemente pelo Ministério do Trabalho, o Brasil perdeu 2.438.163
empregos formais nos anos 1990 (54,568 - 52,130 milhões).[11]
Pode-se supor, portanto, que o chamado ‘mercado informal’ recebeu uma massa de
mais de 12 milhões de pessoas ao longo dos anos 1990.
De 1990 para cá, a PEA
(População Economicamente Ativa) cresceu de 64.467.981 para 74.138.441 de
trabalhadores, segundo os dados do IBGE. A PEA é o conjunto dos brasileiros
residentes no país que estão aptos ao trabalho.
Em 1990, os
trabalhadores da indústria respondiam por 15,2% dos empregos formais. Hoje esse
percentual caiu para 12,3%. No setor de serviços, houve aumento de 17,9% para
19,1%.
A queda do emprego
formal atingiu essencialmente a indústria, as nove regiões metropolitanas e
particularmente a Grande São Paulo. A eliminação de emprego industrial
representou 62% dos cortes de postos de trabalho formais nos anos 1990. As nove
maiores regiões metropolitanas foram responsáveis pelo sumiço de 1.271.509
empregos, ou 52% do total. Só na Grande São Paulo evaporaram 684.557, ou seja,
54% da perda das regiões metropolitanas e 28% do total. [12]
Paralelamente a essas
quedas gerais, constata-se uma certa redistribuição espacial, principalmente
nos últimos dois anos. Em todo o período, apenas o Distrito Federal e o Amapá
tiveram saldos positivos de emprego formal. Entretanto, no período pós-Real, o Amapá deixou essa
lista de beneficiados, enquanto juntavam-se ao DF seis estados do Nordeste e
quatro do Norte. Os acréscimos mais significativos foram os do Amazonas, Ceará,
Rio Grande do Norte e Paraíba.
Segundo o Secretário
Executivo do Ministério da Previdência, a brutal perda de empregos nas regiões
Sudeste e Sul - particularmente nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Rio
Grande do Sul e Paraná - revela uma “busca de localizações de menores custos,
inclusive sindicais, em resposta à maior competição promovida pela
desregulamentação e pela abertura comercial.”[13]
Pelos dados da PNAD
(Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), o total de pessoas ocupadas
pelos diferentes ramos de atividade passou de 62,101 milhões em 1990, para
66,570 milhões em 1993. No mesmo período, os que estavam ocupados na agricultura
passaram de 14,181 milhões para 18,254 milhões. Em três anos, 4,469 milhões de
pessoas somaram-se ao total de ocupados, dos quais 4,073 milhões na agricultura
e somente 397 mil nas atividades não-agrícolas. Ou seja, mais de 91% dos
brasileiros que se juntaram à força de trabalho ocupada entre 1990 e 1993
teriam encontrado ocupação na agricultura; “o oposto de todas as tendências
históricas do último meio século pelo menos, que resgistravam, como
consequência da industrialização e da expansão dos serviços, a saída em massa
dos trabalhadores da agricultura, a migração rural e o crescimento explosivo
das cidades.”[14]
As PNADs de 1990 e
1993 também mostram que os setores com maiores quedas de ocupação foram a
indústria de transformação (- 9,3%); outras atividades, em que predomina o
setor financeiro (- 19,1%); e transportes e comunicações (- 6,4%). O número de
assalariados agrícolas caiu de 5,236 milhões para 4,935 milhões.
Com base nesses dados,
Singer (1996) sugeriu a hipótese de que “a diminuição brutal das oportunidades
de trabalho nas cidades deve ter induzido parte dos excluídos a migrar às áreas
de origem para se reintegrar à produção agrícola familiar.” Outros resultados
das PNADs reforçariam essa hipótese: i) o incremento dos ocupados na agricultura
foi proporcionalmente maior no Sudeste (36,5%), vindo a seguir o Centro Oeste
(29,4%), o Nordeste (26,6%) e, por último, o Sul (15,4%); ii) o número de ocupados não-remunerados
passou de 4,980 milhões em 1990 para 6,972 milhões em 1993 (+ 40%), sendo que a
grande maioria dos não-remunerados
estavam ocupados na agricultura (79,1% em 1990). Ou seja, metade dos que teriam
voltado para a agricultura estariam nessa situação de não-remunerados.
Sempre segundo Singer,
“algo como 22% dos ocupados na agricultura, em 1993, era constituído por
desempregados disfarçados, que, na melhor das hipóteses, contribuíam para a
produção de subsistência da unidade familiar.” Durante a recessão de 1983/1985,
o total de ocupados cresceu em 4,771 milhões, dos quais 2,075 milhões (43,5%)
na agricultura. Essa proporção, que já estava bem acima do normal, é bem menor
que os 91,1% em 1990-93. “Em 1981-1983 teve lugar a pior recessão do século, de
modo que o inchaço da ocupação agrícola logo a seguir é entendível. A recessão
de 1990-1992 foi apenas um pouco menor, mas coincidiu com o início de uma
mudança estrutural decorrente da abertura do mercado interno às importações: a
desindustrialização. Deve ser por isso que o retorno ao campo atingiu desta vez
dimensão muito maior.” (Singer,1996)
Essa hipótese de Singer merece ser testada.
Mas é preciso ter em conta: (a) que mudanças nos critérios das PNADS
distorceram os resultados, fazendo com que a comparação 1990/93 seja muito
duvidosa; b) que a agricultura brasileira não tem apenas os segmentos patronal
e familiar.
É preciso distinguir
os estabelecimentos agrícolas familiares que geram alguma renda monetária,
podendo ser entendidos, portanto, como unidades de produção agropecuária, dos
estabelecimentos também classificados como agrícolas pelo Censo Agropecuário,
mas que, na verdade, abrigam uma população que não gera renda monetária, ou
gera essa renda fora dos estabelecimentos. Sob o prisma da economia agrícola,
estes estabelecimentos podem ser classificados como “franja periférica”. Mas,
sob o prisma do desenvolvimento rural, a população residente nesses
estabelecimentos é tão ou mais importante que os agricultores familiares e os
assalariados agrícolas. Se não houver oportunidades ocupação econômica
(geradora de renda) para essa população rural não-agrícola (em parte
para-agrícola), não poderá haver desenvolvimento rural. Mesmo que o Brasil não siga exatamente o caminho de países como os EUA
e o Canadá, é impossível pensar na agricultura como atividade preponderante no
meio rural.[15]
Só com os resultados
do Censo Agropecuário de 1996 é que se poderá ter uma idéia mais precisa, tanto
sobre os segmentos patronal e familiar da agricultura, como sobre essa ocupação
para-agrícola que reside nos estabelecimentos da “franja periférica”. Por enquanto,
dispomos apenas de aproximações grosseiras baseadas no velho Censo de 1985. Com
base em tais aproximações, a estrutura da ocupação agrícola seria mais ou menos
a que está resumida na tabela 5. Ela indica que essa ocupação “para-agrícola”
(parte da rural não-agrícola) estaria em torno de 6 milhões de pessoas, em um
total de 18 milhões de ocupados na agricultura.
A ocupação agrícola
estaria próxima da metade da população rural, pois esta era, em 1991, de 36
milhões. E a ocupação não-agrícola seria inferior a 44% da população urbana (48
milhões de ocupados não-agrícolas pela PNAD de 1993 sobre 111 milhões de
população urbana em 1991).
Entre 1980 e 1991,
enquanto a população urbana aumentou quase um quarto, a população rural
diminuiu 6,5 %. Sua participação na
população total caiu de 32,4% para
24,5% nesse período. Mas a população rural da região Norte aumentou bastante,
principalmente no Pará e em Rondônia, sendo que um quarto desse aumento
regional foi motivado pela inclusão do novo estado de Tocantins. A redução da
população rural de Goiás foi bem maior que a população de Tocantins: 687 contra
389 mil. Feito o ajuste, a população rural do Centro Oeste diminuiu 11% nesse
período (e não 28% como poderia parecer). Com exceção do Mato Grosso, onde a população
rural aumentou 12%, a tendência Centro Oeste foi semelhante à do Sudeste, onde
a população rural diminuiu 15,6%. A maior queda da população rural ocorreu no
Sul (-20%) e a menor no Nordeste (-3%).
Em setembro de 1990,
as pessoas de 10 anos e mais de idade, economicamente ativas, com rendimentos e
com domicílio rural ganhavam, em média, 40% do que ganhavam as que tinham
domicílio urbano. Mas as diferenças regionais eram bem significativas 42% no
Sudeste, 47% no Centro Oeste e 53% no Sul e 79% no Nordeste. E é preciso ter em
conta que esse rendimento médio no Nordeste urbano era de apenas um terço da
média nacional fazendo com que esse rendimento médio no Nordeste rural fosse
praticamente a metade do verificado nas regiões Sul e Centro Oeste.
Entre 1988 e 1995, a
demanda global de força de trabalho nas lavouras sofreu uma redução de mais de
800 mil postos. Examinando as 30 principais culturas, Balsadi (1996) constatou
que, “nos anos 90, a agricultura brasileira não conseguiu recuperar a área
total que era cultivada no final da década de 80, algo em torno de 54 milhões
de hectares. Aliado a isso, culturas intensivas na absorção de força de
trabalho, como é o caso do café e do algodão (arbóreo e herbáceo), passaram por
graves crises que resultaram na redução do emprego agrícola”.
(Balsadi,1996:796)
Em
equivalentes-homens-ano, essa redução da demanda global de força de trabalho
nas lavouras entre 1988 e 1995 foi de 8,327 milhões para 7,5 milhões. Ela se
manifestou com mais força nas regiões Sudeste e Centro Oeste, onde as quedas
foram da ordem de 20%, contra 10% nas regiões Nordeste e Sul. Na região Norte
houve um aumento de 13%. (ver tabela 3).
A demanda de força de
trabalho pelas lavouras tem estado concentrada
em seis culturas: milho, cana-de-açúcar, café, mandioca,
arroz e feijão. No período considerado, essas seis culturas
ocuparam entre 65% e 74% da mão-de-obra e 60% da área utilizadas no conjunto
das trinta culturas. Entre elas, apenas
o café reduziu significativamente tanto a área quanto a demanda por
força-de-trabalho. As outras cinco mantiveram ou aumentaram sua participação.
Atualmente o milho é o principal demandador de força-de-trabalho, seguido pela
cana-de-açúcar. O subconjunto dos “grãos” (algodão herbáceo, amendoim, arroz,
feijão, mamona, milho, soja e trigo) tem sido responsável por cerca de 40% da
demanda de força de trabalho.(Balsadi,1996:793-4) (ver tabela 6)
Alguns
outros dados desse mesmo trabalho de Balsadi (1996) merecem destaque:
* A força de trabalho
demandada pelas lavouras concentra-se no Nordeste (42% em 1995), no Sudeste
(24%) e no Sul (20%). No Norte e no Centro-Oeste as lavouras absorveram apenas
10% e 4% respectivamente.
* Foi somente na região
Norte que não ocorreu redução de força de trabalho nas lavouras. No extremo oposto,
as regiões Sudeste e Centro-Oeste tiveram quedas bem acentuadas. No Nordeste e
no Sul o comportamento foi semelhante à média nacional.
* Na região Norte, o
Pará respondeu por 57% do total em 1995. Rondônia com 27%. O Pará e o Acre
foram os estados com maiores acréscimos na demanda de força de trabalho no
período 1988-95. As principais culturas demandadoras dessa regiào foram a
mandioca (29%), o arroz (20%), o café e o milho (ambos 13%).
* Na região Nordeste,
os estados que mais demandaram foram a Bahia (25%), o Ceará (18%), o Maranhão
(13%) e Pernambuco (12%). Só o Maranhão e Sergipe registraram aumentos de
demanda no período considerado. Assim, reduziram-se em 300 mil as oportunidades
de trabalho nas lavouras da região Nordeste. As principais culturas
demandadoras foram: mandioca (23%), cana-de-açúcar (20%), milho (15%) e feijão
(10%).
* Na região
Centro-Oeste, as maiores demandas estavam em Goiás (41%), Mato Grosso (32%) e
Mato Grosso do Sul (26%). A queda foi pior no Mato Grosso do que no Mato Grosso
do Sul. As principais culturas foram: a soja (23%), o algodào herbáceo (18%), o
milho (15%), e a cana-de-açúcar (11%).
* Na região Sudeste, o
estado que mais demanda é Minas Gerais (47% em 1995), seguido por São Paulo
(36%). Em todos os estados houve queda da demanda de força de trabalho para
lavouras no período 1988-95. O resultado foi uma redução superior a 400 mil
postos de trabalho. As principais culturas demandadoras foram: o café (35%), a
cana (19%), e o milho (17%) Entre elas, apenas a cana-de-açúcar aumentou a
demanda.
* Na região Sul, a
demanda de força de trabalho pelas lavouras foi relatviamente bem distribuída
em 1995: Paraná 42%, Rio Grande do Sul 34% e Santa Catarina 24%. A redução das
áreas de algodão herbáceo, café e trigo provocaram um queda da demanda
paranaense de 160 mil postos de trabalho entre 1988 e 1995. As principais
culturas demandadoras foram: o milho (32%), o arroz (14%) e o fumo (12%).
Nos últimos quinze
anos, as ocupações no meio urbano aumentaram mais de 60%, passando de 31,5 para
50,8 milhões. Já as ocupações no meio rural aumentaram apenas 13%, passando de
16,3 para 18,4 milhões. Os ocupados em atividades rurais agrícolas passaram de
13,2 para 14,5 milhões, aumentando 10%, enquanto os ocupados em atividades
rurais não-agrícolas passaram de 3,1 para 3,9 milhões, aumentando 26%. E a
categoria que mais cresceu foi a dos ocupados em atividades agrícolas com
residência urbana. Passaram de 2,5 para 3,7 milhões, um salto de 48%. No mesmo
período, aumentou em mais de 40% a população residente nas cidades, enquanto a
queda da população residente no meio rural foi de pouco mais de 7%. Isto faz
com que hoje existam apenas 4 ocupações para cada 10 residentes urbanos,
enquanto essa relação é de quase 6 para 10 no meio rural. [16]
O maior problema não está, portanto, na falta de ocupações
rurais, mas, principalmente na insuficiência de ocupações rurais geradoras de
renda. A redução do emprego agrícola pode estar sendo
contrabalançada pela expansão do emprego rural não-agrícola, com níveis
salariais equivalentes (muito mais baixos dos que os pagos nas cidades para
tarefas semelhantes). Só que o conjunto dos assalariados corresponde, no
máximo, à metade das ocupações no meio rural. A outra metade, que vive em
milhões de imóveis rurais de pequeno e médio porte, constitui um valoroso
capital humano que tende a ser sacrificado pelo viés urbano do estilo de
crecimento; mas que também pode ser a base de uma virada. Tudo depende da
importância que for atribuída a uma estratégia de desenvolvimento rural que
possa liberar o potencial da agricultura familiar, melhorar as condições de
barganha dos empregados rurais e promover a geração de renda em novas
atividades rurais não-agrícolas.
Conclusões
As considerações
anteriores apontam para algumas proposições que, na maioria dos casos, são mais
hipóteses para pesquisas futuras do que verdadeiras conclusões.
1) A tendência
ao êxodo rural, que continuava a se manifestar com muita força na década de 80
(com exceção da região Norte e Mato Grosso), sofreu algum tipo de interrupção
nos primeiros anos da década de 90.
1.1) A recessão de
1990-1992, somada ao início de uma mudança estrutural decorrente da abertura
comercial pode ter provocado um “retorno ao campo” de dimensões bem maiores do
que o ocorrido durante a recessão de 1981-83.
1.2) A redução das
oportunidades de trabalho em atividades agrícolas continua muito acentuada no
Sudeste e no Centro Oeste, em contraste com uma estabilização no Nordeste e no
Sul (além de aumento no Norte).
1.3) O provável “retorno
ao campo” aumentou a importância relativa da população para-agrícola, parte da
população rural-não-agrícola.
2) Em vez de
uma melhora das condições e da qualidade de vida, as recentes mudanças apontam
para uma espécie de ruralização da miséria e da exclusão social.
2.1) O número de empregados agrícolas
continua em queda em todas as regiões.
2.2) Somente cerca de
um quarto dos agricultores familiares do Nordeste, e por volta da metade dos de
outras regiões, encontram-se numa situação socioeconômica relativamente segura.
2.3) Tanto em
atividades agrícolas, quanto nas demais atividades rurais, tende a diminuir os
níveis de ocupação geradora de renda.
3) O aumento da
miséria e da exclusão no meio rural não ajuda a conter a degradação de recursos
naturais estratégicos para o bem estar (muitas vezes para a própria
sobrevivência) do conjunto da
sociedade brasileira (incluindo as futuras gerações).
3.1) Os efeitos
predatórios do crescimento agrícola já atingiram quase todos os ecossistemas,
mas foram muito mais sérios nos ecossistemas da Mata Atlântica, das Florestas e
Campos Meridionais e, sobretudo, do Semi-Árido nordestino (Caatinga).
3.2) Mais danos têm
sido causados aos ecossistemas dos Cerrados porque terras aptas foram
exploradas inadequadamente, do que por terem sido exploradas terras inaptas.
3.3) Ao mesmo tempo, a
intensificação de atividades agrícolas em áreas dos cerrados próximas ao
Pantanal (“bordas”) ameaçam esse ecossistema.
4) As chamadas
“estratégias empresariais,” (isto é, as direções dos investimentos que mais
diretamente afetam as populações rurais e os ecossistemas dos quais elas
dependem) raramente reduzem a pobreza e a exclusão no meio rural.
4.1) Na região Sul, as
grandes empresas inclinam-se principalmente a políticas cada vez mais seletivas
que intensificam a exploração dos agricultores familiares mais consolidados,
atirando os outros numa difícil luta pela sobrevivência na profissão.
4.2) Na região Sudeste,
a principal tendência atual das grandes empresas é a adoção de tecnologias
altamente poupadores de força de trabalho, o que gera cada vez mais desemprego.
4.3) Nas demais regiões
não é possível fazer o mesmo tipo de generalizações sobre as “estratégias
empresariais,” devido à maior heterogeneidade e, no caso do Centro Oeste, à
enorme rapidez das mudanças.
5) A promoção
do acesso à terra por meio da atual política de assentamentos tem dado
resultados globalmente positivos, mostrando o potencial que poderia ser
liberado por uma opção pela reforma agrária.
6) A efetivação
ampliada do PRONAF pode liberar um imenso potencial de progresso
sócio-econômico que continua reprimido entre milhões de agricultores familiares
que já têm acesso à terra.
7) Existem
muitas possibilidades de geração de renda em ocupações rurais não-agrícolas que
não têm recebido a devida atenção da sociedade.
8) Para propor
uma reorientação do processo de desenvolvimento será necessário antes de tudo:
8.1) identificar, em
cada mesoregião, os principais obstáculos à expansão e fortalecimento da agricultura
familiar;
8.2) apontar, para cada
mesoregião, ações concretas que permitam liberar o potencial da agricultura
familiar;
8.3) levar a sociedade a optar pelo
aprofundamento do PRONAF.
8.3) aumentar as
condições de barganha dos empregados agrícolas, por meio de uma organização
mais adequada às dificuldades dessa categoria;
8.4) propor políticas
concretas de geração de renda em atividades rurais não-agrícolas.
Tabela
1 - Canadá e Estados Unidos: Perfis Rurais Similares
(Porcentagens)
|
|
Canadá |
EUA |
|
População
(1986) Rural Agrícola Taxa
de desemprego (1989) Rural Urbano Taxa
de crescimento do desemprego (1986-89) Rural Urbano Participação
setorial do emprego rural (1989) Agricultura Indústria Serviços Participação
Rural da Pobreza(1986) Proporção
abaixo da linha de pobreza* Grandes centros urbanos Pequenas cidades Rural Nível
de escolaridade Além da secundária (1988) Rural Urbano Menos que colegial (1988) Rural Urbano RENDA
FAMILIAR MÉDIA (1990) Rural Urbano |
23,0 4,0 8,8 7,1 4,5 10,4 12,0 17,0 28,0 7,0 20,0 19,0 17,0 25,0 32,0 21,0 14,0 $ 36.700 41.000 |
23,2 2,2 5,7 5,2 6,9 7,2 9,0 18,0 26,0 29,0 16,7 8,0 16,3 34,0 52,0 28,0 20,0 $ 23.709 31.823 |
* Nos EUA, “grande cidade” é área metropolitana.
No Canadá: mais de 50.000 hab.
Fonte:
Freshwater (1993)
42 Projetos de investimento considerados
prioritários.
[
R$
10,2 bilhões de recursos fiscais no
biênio 1997/98 ]
(+
R$ 3,7 bilhões de fin.internacionais)
1. TELECOMUN. 33.087,80
2. “REFORMA AGR.”
7.215,00
(1997/98:
150 mil fam.)
3. EMPREGO 5.328,90
4.
HABITAÇÃO 5.176,60
5. SAÚDE 3.750,80
6.
SANEAMENTO 3.732,40
7.
RODOVIAS 3.568,80
8.
GÁS/GASODUTO 3.134,80
9. PRONAF
3.072,00
(1997/98: 1.125 municípios)
10.
PORTOS 2.701,40
11. IRRIGAÇÃO 2.487,50
12.
MICROEMPRESA 2.150,00
13.
FERROVIAS 1.643,70
14.
ELETRICIDADE 1.472,00
15.
EDUCAÇÃO 1.417,20
16.
TURISMO
800,00
17.
HIDROVIAS 431,80
18.
CREDITO POPULAR 234,00
Tabela
3 - Demanda de força de trabalho agrícola anual: Brasil e
Regiões, 1988-1995
Em mil equivalentes-homens-ano, EHA(1000)
|
|
1988 |
1990 |
1994 |
1995 |
|
Norte Nordeste Centro Oeste Sudeste Sul |
672 3.450 374 2.257 1.574 |
627 3.150 314 2.048 1.502 |
726 3.130 289 1.851 1.467 |
758 3.162
301 1.822 1.457 |
|
BRASIL |
8.327 |
7.641 |
7.463 |
7.500 |
Fonte: Balsadi
(1996:798-9)
Tabela
4 - Evolução do
Emprego Formal, Brasil, 1990-1996
|
Regiões e Estados |
1990-1996 |
Período Pós-Real |
|
SUDESTE São
Paulo Rio
de Janeiro Minas
Gerais Espírito
Santo |
- 1.601.996 -1.071.241 - 295.993 - 209.028 - 25.734 |
- 529.388 -
409.430 - 36.123 - 79.138 - 4.697 |
|
SUL Rio
Grande do Sul Paraná Santa
Catarina |
- 527.782 -
252.761 -
189.485 - 85.536 |
- 206.130 - 97.501 - 78.785 - 29.844 |
|
NORDESTE Pernambuco Bahia Alagoas Sergipe Rio
Grande do Norte Maranhão Paraíba Piauí Ceará |
- 184.861 - 70.904 - 54.518 - 14.124 - 14.601 - 8.883 - 10.842 - 2.191 - 3.339 - 5.459 |
- 19.329 - 4.482 - 12.091 +
7.739 - 4.361 + 9.891 + 829 + 7.891 + 3.175 + 10.738 |
|
NORTE Pará Amazonas Rondônia Roraima Acre Amapá |
- 78.325 -
49.006 -
29.429 - 997 - 33 - 530 +
1.670 |
+ 5.604 - 9.738 + 13.251 + 1.055 + 1.061
+ 467 - 492 |
|
CENTRO
OESTE Goiás Mato
Grosso do Sul Distrito
Federal Mato
Grosso |
- 45.199 - 22.030 - 20.106 +
1.542
- 4.605 |
- 44.794
- 8.500 - 18.986 - 7.790
- 9.518 |
|
BRASIL |
- 2.438.163 |
- 755.379 |
Fonte: Rodrigues (1996,1997)
Tabela 5 - Sinopse hipotética da estrutura da
ocupação
agrícola
e para-agrícola, Brasil, 1993
|
Categorias |
Ocupados (milhões) |
% |
|
Assalariados Agricultura
Familiar Consolidada Agricultura
Familiar de Transição Ocupação
Para-Agrícola |
5 4 3 6 |
28 22 17 33 |
|
OCUPADOS
NA AGRICULTURA |
18
|
100 |
* Distribuição grosseira dos dados da PNAD
de 1993 segundo estimativas feitas tendo
por
base o Censo Agropecuário de 1985 (ver Veiga,1995a)
** Na PNAD de 1993, a PEA totalizava 66,570
milhões.
Tabela
6 - Participação relativa das 12 principais culturas na
demanda de força de trabalho agrícola anual* e na área cultivada: Brasil,
1988-1995
|
Culturas |
EHA(%) 1988 |
EHA(%) 1995 |
Área(%) 1988 |
Área(%) 1994 |
|
Milho Cana-de-aç. Mandioca Café Arroz Feijão Algodão Herb. Cacau Banana Fumo Laranja Soja |
15,9 12,9 11,6 14,6 7,7 7,6 6,0
3,4 2,8 2,4
1,5 2,0
|
18,5 14,4 14,2 11,2 7,8 7,7 4,0
3,7 3,5
2,8
2,6 2,6 |
23,6 7,4 3,2 5,3 10,8 10,4 3,2
1,2 0,8
0,5 1,3 19,0 |
27,4 8,6 3,7 4,2 8,8 10,9 2,1
1,4 1,0
0,6 1,9 23,0 |
|
TOTAL** |
88,4 |
93,0 |
86,7 |
93,6 |
* em equivalentes-homens-ano (EHA) a nível tecnológico médio
** em relação às 30 principais culturas
Fonte: Balsadi(1996:795)
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______________ (1991) O Desenvolvimento Agrícola; Uma
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WCED (1987) Our
Common Future, Oxford: Oxford University Press
[1] O
IDH é determinado por três indicadores: renda, escolaridade e esperança de vida
ao nascer.
[2] Nos
EUA a pobreza rural persiste em áreas muito específicas e está sempre
relacionada a alguns fatores raciais/culturais. (Beale,1993)
[3] Ver
Arndt (1987).
[4] ver
WCED (1987)
[5] Na
linha de trabalhos considerados “clássicos,” como os de Lele(1975) e Johnston
& Clark(1982).
[6] Nesses 42 projetos
o governo pretende aplicar R$ 10,2 bilhões de recursos fiscais no biênio
1997/98. Pretende também captar mais R$ 3,7 bilhões junto às principais fontes
de financiamento internacional. De 18 subconjuntos obtidos pela agregação dos
valores globais de projetos similares, alguns terão efeitos diretos no
meio rural: a “reforma agrária” surge em segundo lugar ( com R$ 7,2 bilhões), o
PRONAF em nono (com R$ 3,1 bilhões) e a irrigação logo depois. Mas muitos
outros subconjuntos - como habitação, saneamento e vários tipos de
infraestrutura - também podem ter grande importância para o meio rural (tabela
2).
A contradições entre o Plano e os Orçamentos de 1996 e
1997 são muito sérias e permitem duvidar de que ele seja, de fato, exequível.[6]
Também permitem supor que os conflitos entre os grupos de interesse ligados a
esses 42 projetos serão bem acirrados. Mas, atenção: nada disso anularia a
importância sinalizadora das metas de investimento estabelecidas pelo poder
executivo (leia-se Ministério do Planejamento) para o próximo biênio, caso elas
venham a ser confirmadas.
É importante considerar a recente extinção do ICMS para as exportações e, sobretudo, as rápidas alterações do modelo de política agrícola. São sinais muito recentes, que ainda não autorizam previsões. Mas, globalmente, talvez seja possível supor que muitas oportunidades de trabalho no meio rural serão garantidas pelo aumento das exportações agrícolas, pelo PRONAF, irrigação, etc., compensando parte do desemprego gerado pela abertura do país à economia internacional e pela contenção de gastos do governo. A extinção do ICMS sobre as exportações, por exemplo, pode ter um impacto imediato e muito efetivo sobre a agricultura familiar. O aumento das exportações certamente favorecerá a manutenção de postos de trabalho, principalmente em seus segmentos mais consolidados. Além disto, o fim do imposto também elevará alguns preços pagos ao produtor, já que as indústrias terão que gastar mais para evitar que algumas de suas matérias-primas sejam comercializadas no mercado externo.[6] Basta dizer que exportações de milho passam a ser competitivas, situação anteriormente impensável. Durante os meses de colheita, entre fevereiro e maio, os preços do milho já não cairão tão acentuadamente. As esmagadoras pagarão mais pela soja e a cafeicultura reconquistará mercados perdidos nos últimos sete anos.
[7] ver Barros & Goldenstein (1996).
[8] ver
p.ex.: Gomes, Souza & Magalhães (1995) e PNMA (1995).
[9] ver Testa et al. (1996)
[10] ver
Braun (1995)
[11] Os
dados Ministério do Trabalho referem-se a 324.531 empresas, isto é, 82% das
empresas formalmente constituídas no país, das quais 110.831 estavam no Estado
de São Paulo.
[12] Esses
dados do Ministério do Trabalho foram publicados pela Folha de São Paulo de 15/09/96, p.1-8, e de 28/02/97 pp. 2-1 e 2-16, em matérias assinadas por
Fernando Rodrigues. Ver tabela 4.
[13] cf. Cechin (1996)
[14] cf. Singer (1996)
[15] Em
todos os países que conseguiram se desenvolver, confirmou-se a parábola do
“tapete rolante”. Os agricultores mais dinâmicos, os que primeiro adotam novas
tecnologias, conseguem os benefícios advindos da redução dos custos de
produção. Conforme seu exemplo vai sendo seguido por um número cada vez maior
de produtores, a expansão da oferta tende a derrubar os preços e comprimir a
margem de lucro do conjunto. Isto empurra para fora do negócio os que demoram a
adotar as novas tecnologias, uma vez que os preços tendem a não cobrir seus
custos de produção. Eles não acompanham a aceleração do "tapete
rolante" e acabam vendendo suas terras e demais ativos à vanguarda que
conseguiu captar os lucros temporários. E os que conseguem manter o ritmo dessa
corrida tecnológica continuam na "armadilha" produtivista. O
principal efeito da sustentação de preços pelo governo é acirrar a competição
entre os que ficam no setor, uma vez que sua renda passa a depender
essencialmente da dimensão de seus ativos, principalmente os ativos fundiários.
E a consequente elevação do preço da terra volta a dissipar a margem de lucro,
gerando nova situação de equilíbrio. Ver: Cochrane (1958,1979)
[16] Ver
o trabalho de José Graziano da Silva “O Novo Rural Brasileiro” (28p.)
apresentado no XXIV ENCONTRO NACIONAL DE ECONOMIA (ANPEC), Águas de Lindóia,SP, dezembro de 1996.